quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Um olhar e um poema!! 4


A Minha Vida é um Barco Abandonado

A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'


Nota: O sol estava a nascer!!!

#09_Oficina do Cosmos

Orchard Beach (The Bronx Riviera)

São provocantes, vistosas, e raramente as medidas
correspondem à formatação das revistas de moda. As
raparigas captadas pela câmara de Wayne Lawrence,
fotógrafo norte-americano que assentou raízes
no bairro de Brooklyn, são retratos crus de uma
sensualidade urbana que surpreende.

Wayne Lawrence cria diários visuais da fauna humana
que o rodeia nos mesclados bairros de Brooklyn e
do Bronx. De ascendência caribenha, o fotógrafo
faz da mestiçagem norte-americana uma forma de
arte, coleccionando corpos e espíritos de cores e
formas africanas e latino-americanas, bem como os
seus rituais citadinos.

Esta grande paleta de pinturas
urbanas divide-se em diversas colecções, entre as quais
se destacam “Orchard Beach (The Bronx Riviera)” e
“MIA (Urban Beach Week).

O sexo feminino é um protagonista de peso na obra
de Wayne Lawrence. E ser uma jovem mulher mestiça
nos bairros nova-iorquinos é ter estampada no corpo
uma herança cultural irrefutável.

As imagens de Wayne revelam-nos raparigas vibrantes que exibem folhos à
“lolita” e mais maquilhagem que roupa, peles quentes,
lábios carnudos e tatuagens em saltos altos. Vivem na
cidade e gostam de ostentar a sua beleza americana em
flashes de sensualidade explosiva. Encaram a câmara
sem medos ou pudores e mostram como são poderosas
por dentro e por fora. Tanto num bambolear de ancas
a atravessar uma rua como numa pose provocante à
beira-mar.


Mais trabalhos do fotógrafo em:

www.waynelawrenceonline.com

Fonte: Dif Mag




sábado, 2 de outubro de 2010

Um olhar e um poema!! 3


Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!

Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p'ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."


Tu é que a sabes toda, Coelhinho. Um abraço.

#08_Oficina do Cosmos

Cruising to Hubbard Glacier, Alaska from Patrick Satterfield on Vimeo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um olhar e um poema!! 2



Uma Cidade

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.
Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

Os Golpes.

Tu aí, sim tu: que (ainda) não desististe de viver aos dias de semana, que (ainda) não te deixaste vencer pela rotina e (ainda) não assumiste que todos os dias que acabam em feira acabam mas é em casa-trabalho e trabalho-casa. Tu que (ainda) tens esperança que estes “aindas” não precisavam de ali estar entre parênteses, tenho uma ideia para ti: dá o golpe ao cansaço, à chuva e a qualquer outra coisa que teime tentar prender-te em casa e sobe a Rua da Esperança até ao Convento das Bernardas. Hoje tocam Os Golpes.
Faz lembrar uns bons anos 80.
Fonte: Lecool magazine