sexta-feira, 2 de julho de 2010

#12_Fracção de Segundo




Pessoas da sociedade convidadas pela princesa Paleóloga, que descende (como dizia um dos seus parentes, o bom desenhador Pal) dos imperadores de Bizâncio, dançavam, espiritualmente mascaradas de pijamas. Era, como se pode ver, um baile altamente distinto, pelo menos quanto à vestimenta.

O baile tinha lugar em Montparnasse, naquela taberna que se ornamenta com o nome do célebre herói dos cantos de Maldoror, de Lautréamont. Lautréamont, um artista tão subtil, poeta tão poeta, transformado em insígnia de um café!

Os surrealistas, feridos até à medula, não puderam aceitar tal injúria. E assim, conduzidos pelo senhor René Char, que tem os músculos de Matho, e por André Breton, Aragon, Paul Éluard e Marcel Noll, assaltaram a espelunca.

Pondo fora os primeiros convidados, cujos pijamas de súbito “iluminaram” o passeio, os nossos poetas da mais recente geração começaram a limpar os convidados da princesa, que dava gritos de horror. Entretanto, o senhor de Landau, de monóculo, e os criados do bar, perante as primeiras vagas de assalto, organizaram a resistência em posições sólidas.

Viram-se senhoras da melhor sociedade (qual?) baterem-se como peixeiras, agarrando à má fila os baldes de gelo para os utilizar como cacetes. Os surrealistas defenderam-se como leões. Foi belo como um poema de... Lautréamont, e o comissariado de polícia da rua Gaîté [alegria] conheceu, mais uma vez, as explicações veementes dos nossos jovens poetas, as de um barman checoslovaco e ainda as dos condes, princesas e grandes senhores russos que já não se preocupavam com o general Koutiepoff.

Toda esta bela gente não foi presa.



Resumo noticioso do jornal Le Soir – 1930

René Char
(França, 1907 – 1988)
Este Fanático das Nuvens
(Organização de Marie-Claude Char e Y. K. Centeno, tradução de Y. K. Centeno, Cotovia, 1995)

Fotografia: Alfred Eisenstaedt_Children at a puppet theatre, Paris

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