quarta-feira, 26 de maio de 2010

#08_Fracção de Segundo




Dantes levava a máquina de escrever para um bar que havia perto de minha casa, no centro, e sentava-me a uma mesa durante horas.

O dono queixava-se do ruído, mas não se decidia a expulsar-me, porque já era uma atracção local, uma espécie de número vivo. Um dia apercebi-me de que as pessoas à minha volta se comportavam de maneira estranha, como figurantes a tentar chamar a atenção da câmara. O dono confessou-me que lhes tinha dito que eu era um romancista e que escrevia tudo o que se passava à minha volta.

E eles esforçavam-se por me dar pormenores, e falavam um vocabulário rico, como falam todos os personagens dos maus escritores.

Pablo De Santis,

(Argentina, 1963)

A Tradução

(Tradução de Jorge Fallorca, Asa, 2000)

Fotografia (Willy Ronis)

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