
“(…) Agora, vamos voltar os nossos pensamentos para o céu.
- Quer dizer, como os pássaros de que me falou?
- Isso mesmo Walt, tal e qual os pássaros.
- Está a dizer-me que esse seu projecto se mantém de pé? Que continua a encará-lo de uma forma… enfim… séria?
- Mais séria não poderia ser. Estamos prestes a chegar ao décimo terceiro degrau. Se cumprires à risca todas as minhas instruções, estarás em condições de voar no Natal do próximo ano.
- O décimo terceiro degrau? Quer dizer que eu já subi doze degraus?
- Exacto, doze. E subiste-os triunfalmente… !
- Eh lá, que me barbeiem já as amígdalas… ! E eu não fazia a menor ideia… Tem andado a esconder-me certas coisas, patrão…
- Eu só te digo aquilo que precisas saber. O resto é comigo.
- Doze degraus, hã? E quantos degraus é que ainda faltam?
- Ao todo são trinta e três.
- Se eu subir os doze degraus seguintes tão depressa como subi os primeiros, então chegarei num instante à recta final da corrida.
- Não chegarás tão depressa, garanto-te. Podes achar que sofreste muito até agora, mas podes ter a certeza de que isso não é nada comparado com o que te espera.
- Os pássaros não sofrem. Abrem as asas e, pronto, voam. Se eu tenho o dom, como o mestre diz, não vejo por que razão é que há-de ser tão difícil.
- Porque, mau cabecinha de abóbora, tu não és um pássaro, és um homem. E, para tu te ergueres do chão, teremos de abrir os céus ao meio.
Teremos de virar do avesso todo o universo.
- Paul Auster, in Mr. Vertigo -
Fotografia: Winogrand, Garry_Untitled, 1950s
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